Acordei do áureo sonho em sobressalto -Alphonsus de Guimaraens

Como se moço e não bem velho eu fosse,
Uma nova ilusão veio animar-me,
Na minh’alma floriu um novo carme,
O meu ser para o céu alcandorou-se.

Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas ânsias de escalar o azul, tornou-se
Todo em raios, que vinham desolar-me.

Vi-me no cimo eterno da montanha
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.

Acordei do áureo sonho em sobressalto;
Do céu tombei ao caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto…

-Alphonsus de Guimaraens

A suave castelã das horas mortas -Alphonsus de Guimaraens

A suave castelã das horas mortas
Assoma à torre do castelo. As portas,
Que o rubro ocaso em onda ensangüentara,
Brilham do luar à Luz celeste e clara.
Como em órbitas de fatais caveiras
Olhos que fossem de defuntas freiras,
Os astros morrem pelo céu pressago…
São como círios a tombar num lago.
E o céu, diante de mim, todo escurece…
E eu nem sei de cor uma só prece!
Pobre Alma, que me queres, que me queres?
São assim todas, todas as mulheres.
Hirta e branca… Repousa a sua áurea cabeça
Numa almofada de cetim bordada em lírios.
Ei-la morta afinal como quem adormeça
Aqui para sofrer Além novos martírios.
De mãos postas, num sonho ausente, a sombra espessa
Do seu corpo escurece a luz dos quatro círios:
Ela faz-me pensar numa ancestral Condessa
Da Idade Média, morta em sagrados delírios.
Os poentes sepulcrais do extremo desengano
Vão enchendo de luto as paredes vazias,
E velam para sempre o seu olhar humano.
Expira, ao longe, o vento, e o luar, longinquamente,
Alveja, embalsamando as brancas agonias
Na sonolenta paz desta Câmara-ardente…

– Alphonsus de Guimaraens, Dona Mística

Era noite de lua na minh’alma -Alphonsus de Guimarães

Era noite de lua na minh’alma

Quando surgiste pela vez primeira:

Em cada estrela, pelo azul em calma,

Florescia uma flor de laranjeira.

 

A esperança entreabria a verde palma

Ante os meus olhos, tépida, fagueira,

Como um aroma que inebria e acalma.

Romaria de amor, doce romeira!

 

E era um jardim de lírios. Suavemente

Sorriu-me a tua boca enamorada,

Como as flores que são como tu és….

 

– “Em que pensas?” – disseste, a voz tremente.

– “Senhora, penso que serás fanada

Como este lírio que te atiro aos pés!”

-Alphonsus de Guimarães

O mistério imortal das olheiras de opala… -Alphonsus de Guimaraens

O mistério imortal das olheiras de opala,

Onde vagueiam a dor dos seus olhos proibidos,

Manda que venham terra e céu para adorá-la. . .

Morre no seu olhar a vida dos sentidos.

 

Mesmo calada, quem a vê julga escutá-la,

Pois canta o seu olhar pelos nossos ouvidos.

De que estrela lhe desce a voz? Quando se cala,

Que rumor de orações nos olhos doloridos!

 

Não existe cá embaixo uma expressão humana

Capaz de definir-lhe o grande olhar tristonho;

E quem a vê, ou sonha uma estátua romana,

 

Marmoreamente branca, imaculada e fria,

Ou tem por entre o nimbo estrelado do sonho

A áurea Revelação de outra Virgem Maria.

-Alphonsus de Guimaraens

Melhores Poemas, Global Editora, 1985

Foi assim que eu a vi. -Alphonsus de Guimaraens

Foi assim que eu a vi. Desse momento
a lembrança tranqüila vem-me do alto
– sonho de rosas num país nevoento,
de que afinal acordo em sobressalto.

Fugiu-me essa visão: de novo tento
firmar os passos para um novo assalto.
Mas que farás, pobre homem sem alento,
tu, cego da alma e de coragem falto!

Que farás, coração que te magoas,
na tua timidez contemplativa,
só, tão longe das almas que são boas!

Que farás, alma, tu que louca e pasma,
seguindo embora o rastro de uma viva,
beijas os passos longos de um fantasma!

-Alphonsus de Guimaraens

Melhores Poemas, Global Editora, 1985

Celeste… É assim, divina, que te chamas. -Alphonsus de Guimaraens

Pulchra Ut Luna

II

Celeste… É assim, divina, que te chamas.
Belo nome tu tens, Dona Celeste…
Que outro terias entre humanas damas,
Tu que embora na terra do céu vieste?

Celeste… E como tu és do céu não amas:
Forma imortal que o espírito reveste
De luz, não temes sol, não temes chamas,
Porque és sol, porque és luar, sendo celeste.

Incoercível como a melancolia,
Andas em tudo: o sol no poente vasto
Pede-te a mágoa do findar do dia.

E a lua, em meio à noite constelada,
Pede-te o luar indefinido e casto
Da tua palidez de hóstia sagrada.

-Alphonsus de Guimaraens,

da obra Melhores Poemas, Global Editora, 1985