Poemas de Cecília Meireles

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.

Serenata

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio, e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo.

Epigrama n. 2

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste.

Morro do que há no mundo:
do que vi, do que ouvi.
Morro do que vivi.
Morro comigo, apenas:
com lembranças amadas,
porém desesperadas.
Morro cheia de assombro
por não sentir em mim
nem princípio nem fim.
Morro: e a circunferência
fica, em redor, fechada.
Dentro sou tudo e nada.

Fio

No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.

Tu não vês o jogo perdendo-se
como as palavras de uma canção.

Passas longe, entre nuvens rápidas,
com tantas estrelas na mão…

— Para que serve o fio trêmulo
em que rola o meu coração?

-Cecília Meireles

Mais poemas de Cecília Meireles

Ninguém anda com Deus mais do que eu ando -Alphonsus de Guimaraens

Ninguém anda com Deus mais do que eu ando,
Ninguém segue os seus passos como sigo.
Não bendigo a ninguém, e nem maldigo:
Tudo é morto num peito miserando.

Vejo o sol, vejo a lua e todo o bando
Das estrelas no olímpico jazigo.
A misteriosa mão de Deus o trigo
Que ela plantou aos poucos vai ceifando.

E vão-se as horas em completa calma.
Um dia (já vem longe ou já vem perto?)
Tudo que sofro e que sofri se acalma.

Ah se chegasse em breve o dia incerto!
Far-se-á luz dentro em mim, pois a minh’alma
Será trigo de Deus no céu aberto…

-Alphonsus de Guimaraens

Melhores Poemas

Não tem mais lar o que mora em tudo. -Cecília Meireles

Não tem mais lar o que mora em tudo.
Não há mais dádivas
Para o que não tem mãos.
Não há mundos nem caminhos
Para o que é maior que os caminhos
E os mundos.
Não há mais nada além de ti,
Porque te dispersaste…
Circulas em todas as coisas
E todos te sentem
Sentem-te como a si mesmos
E não sabem falar de ti.

-Cecília Meireles

Perguntarão pela tua alma. -Cecília Meireles

Perguntarão pela tua alma.
A alma que é ternura,
bondade,
tristeza,
amor.
Mas tu mostrarás a alma do teu voo.
Livre por entre os mundos..
e eles compreenderão que a alma pesa.
Que é um segundo corpo,
e mais amargo,
porque não se pode mostrar,
porque ninguém pode ver…
-Cecília Meireles

Eles te virão oferecer o ouro da Terra. -Cecília Meireles

Eles te virão oferecer o ouro da Terra.
E tu dirás que não.
A beleza.
E tu dirás que não.
O amor.
E tu dirás que não, para sempre.
Eles te oferecerão o ouro d’além da Terra.
E tu dirás sempre o mesmo.
Porque tens o segredo de tudo.
E sabes que o único bem é o teu.

-Cecilia Meireles , Cânticos, 1982

Não fales as palavras dos homens. -Cecília Meireles

Não fales as palavras dos homens.
Palavras com vida humana.
Que nascem, que crescem, que morrem.
Faze a tua palavra perfeita.
Dize somente coisas eternas.
Vive todos os tempos
Pela tua voz.
Sê o que o ouvido nunca esquece.
Repete-te para sempre.
Em todos os corações.
Em todos os mundos.

-Cecília Meireles, Cânticos, Editora Moderna

Adormece o teu corpo com a música da vida. -Cecília Meireles

Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Queira ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?

-Cecília Meireles, em “Cânticos”

Acordei do áureo sonho em sobressalto -Alphonsus de Guimaraens

Como se moço e não bem velho eu fosse,
Uma nova ilusão veio animar-me,
Na minh’alma floriu um novo carme,
O meu ser para o céu alcandorou-se.

Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas ânsias de escalar o azul, tornou-se
Todo em raios, que vinham desolar-me.

Vi-me no cimo eterno da montanha
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.

Acordei do áureo sonho em sobressalto;
Do céu tombei ao caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto…

-Alphonsus de Guimaraens

Até a glória de ficar silencioso, sem pensar. -Cecília Meireles

Não digas onde acaba o dia-
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso.
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.

-Cecília Meireles

A suave castelã das horas mortas -Alphonsus de Guimaraens

A suave castelã das horas mortas
Assoma à torre do castelo. As portas,
Que o rubro ocaso em onda ensangüentara,
Brilham do luar à Luz celeste e clara.
Como em órbitas de fatais caveiras
Olhos que fossem de defuntas freiras,
Os astros morrem pelo céu pressago…
São como círios a tombar num lago.
E o céu, diante de mim, todo escurece…
E eu nem sei de cor uma só prece!
Pobre Alma, que me queres, que me queres?
São assim todas, todas as mulheres.
Hirta e branca… Repousa a sua áurea cabeça
Numa almofada de cetim bordada em lírios.
Ei-la morta afinal como quem adormeça
Aqui para sofrer Além novos martírios.
De mãos postas, num sonho ausente, a sombra espessa
Do seu corpo escurece a luz dos quatro círios:
Ela faz-me pensar numa ancestral Condessa
Da Idade Média, morta em sagrados delírios.
Os poentes sepulcrais do extremo desengano
Vão enchendo de luto as paredes vazias,
E velam para sempre o seu olhar humano.
Expira, ao longe, o vento, e o luar, longinquamente,
Alveja, embalsamando as brancas agonias
Na sonolenta paz desta Câmara-ardente…

– Alphonsus de Guimaraens, Dona Mística

Era noite de lua na minh’alma -Alphonsus de Guimarães

Era noite de lua na minh’alma

Quando surgiste pela vez primeira:

Em cada estrela, pelo azul em calma,

Florescia uma flor de laranjeira.

 

A esperança entreabria a verde palma

Ante os meus olhos, tépida, fagueira,

Como um aroma que inebria e acalma.

Romaria de amor, doce romeira!

 

E era um jardim de lírios. Suavemente

Sorriu-me a tua boca enamorada,

Como as flores que são como tu és….

 

– “Em que pensas?” – disseste, a voz tremente.

– “Senhora, penso que serás fanada

Como este lírio que te atiro aos pés!”

-Alphonsus de Guimarães

PEDRAS E FLORES -Augusto Branco

As pessoas são muito reativas: costumam retribuir exatamente aquilo que recebem. Retribuem o bem com o bem, e o mal com o mal. Mas tu, para seres imensamente feliz, procederás diferente:

Retribua com flores a todas as pedras que te atirarem.

Haverá um momento em que as pedras de teus inimigos acabarão, e assim eles só poderão atirar em você as próprias flores que receberam de ti.

-Augusto Branco

Retrato -Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?

-Cecília Meireles

Antologia Poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.

O mistério imortal das olheiras de opala… -Alphonsus de Guimaraens

O mistério imortal das olheiras de opala,

Onde vagueiam a dor dos seus olhos proibidos,

Manda que venham terra e céu para adorá-la. . .

Morre no seu olhar a vida dos sentidos.

 

Mesmo calada, quem a vê julga escutá-la,

Pois canta o seu olhar pelos nossos ouvidos.

De que estrela lhe desce a voz? Quando se cala,

Que rumor de orações nos olhos doloridos!

 

Não existe cá embaixo uma expressão humana

Capaz de definir-lhe o grande olhar tristonho;

E quem a vê, ou sonha uma estátua romana,

 

Marmoreamente branca, imaculada e fria,

Ou tem por entre o nimbo estrelado do sonho

A áurea Revelação de outra Virgem Maria.

-Alphonsus de Guimaraens

Melhores Poemas, Global Editora, 1985

Foi assim que eu a vi. -Alphonsus de Guimaraens

Foi assim que eu a vi. Desse momento
a lembrança tranqüila vem-me do alto
– sonho de rosas num país nevoento,
de que afinal acordo em sobressalto.

Fugiu-me essa visão: de novo tento
firmar os passos para um novo assalto.
Mas que farás, pobre homem sem alento,
tu, cego da alma e de coragem falto!

Que farás, coração que te magoas,
na tua timidez contemplativa,
só, tão longe das almas que são boas!

Que farás, alma, tu que louca e pasma,
seguindo embora o rastro de uma viva,
beijas os passos longos de um fantasma!

-Alphonsus de Guimaraens

Melhores Poemas, Global Editora, 1985

Celeste… É assim, divina, que te chamas. -Alphonsus de Guimaraens

Pulchra Ut Luna

II

Celeste… É assim, divina, que te chamas.
Belo nome tu tens, Dona Celeste…
Que outro terias entre humanas damas,
Tu que embora na terra do céu vieste?

Celeste… E como tu és do céu não amas:
Forma imortal que o espírito reveste
De luz, não temes sol, não temes chamas,
Porque és sol, porque és luar, sendo celeste.

Incoercível como a melancolia,
Andas em tudo: o sol no poente vasto
Pede-te a mágoa do findar do dia.

E a lua, em meio à noite constelada,
Pede-te o luar indefinido e casto
Da tua palidez de hóstia sagrada.

-Alphonsus de Guimaraens,

da obra Melhores Poemas, Global Editora, 1985

Braços abertos, uma cruz -Alphonsus de Guimaraens

 

Braços abertos, uma cruz… Basta isto,
Meu Deus, na cova abandonada e estreita
Onde repouse quem te for benquisto,
Corpo duma alma que te seja afeita.

É o Justo. As chagas celestiais de Cristo
Beijam-lhe mãos e pés: purpúreo deita
O pobre lado traspassado o misto
De água e de sangue. É o Justo. Eis a alma eleita.

A coroa de espinhos irrisória
Magoa-lhe a cabeça, e pelas costas
Cai-lhe o manto dos reis em plena glória…

Glória de escárnio o manto extraordinário:
Mas quem me dera um dia, de mãos postas,
Nele envolver-me como num sudário!

-Alphonsus de Guimaraens

da obra Melhores Poemas, Global Editora, 1985

Canção -Cecília Meireles

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
– depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

-Cecília Meireles
Antologia Poética

Confidência do Itabirano -C. Drummond

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

-ANDRADE, C. D. Poesia completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.

Uma experiência de Clarice Lispector

Trecho do livro Água Viva

 

O que sou neste instante? sou
uma máquina de escrever fazendo ecoar as
teclas secas na úmida e escura madrugada. Há muito já não sou gente.
Quiseram que eu fosse um objeto. Sou um
objeto. Que cria outros objetos e a
máquina cria a nós todos. Ela exige.
O mecanismo exige e exige a minha vida.
Mas eu não obedeço totalmente: se te
nho que ser um objeto, que seja um
objeto que grita. Há uma coisa dentro de mim que dói. Ah como dói e como
grita pedindo socorro. Mas faltam lágrimas
na máquina que sou. Sou um objeto
sem destino. sou um objeto nas mãos
de quem? tal é o meu destino humano. O
que me salva é grito. Eu protesto em nome do que está dentro do objeto atrás
do atrás do pensamento-sentimento. Sou um objeto urgente.
Agora – silêncio e leve espanto.
Porque às cinco da madrugada de hoje, 25 de julho, caí em estado de
graça.
Foi uma sensação súbita, mas suavíssima. A luminosidade sorria no ar:
exatamente isto. Era um suspiro do mundo. Não sei explicar assim como não se
sabe contar sobre a aurora a um cego.
É indizível o que me aconteceu em forma
de sentir: preciso depressa de tua empatia. Sinta comigo. Era uma felicidade
suprema.
Mas se você já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer.
Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece
aos que lidam com arte.
O estado de graça de que falo
não é usado para nada. é como se viesse
apenas para que se soubesse que realmente se existe e existe o mundo. Nesse
estado, além da tranqüila felicidade que
se irradia de pessoas e coisas, há uma
lucidez que só chamo de leve porque na
graça tudo é tão leve. É uma lucidez de
quem não precisa mais adivinhar: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não me
pergunte o quê, porque só posso responder do mesmo modo: sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se
transforma em um dom. E se sente
que é um dom porque se está se
experimentando, em fonte direta, a dádiva de repente indubitável de existir
milagrosamente e materialmente.
Tudo ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor
da irradiação matemática das coisas e da lembrança de pessoas. Passa-se a
sentir que tudo que existe respira e exala um finíssimo esplendor de energia. A
verdade do mundo, porém, é impalpável.
Não é nem de longe o que mal imagino deve ser o estado de graça dos
santos. Este estado jamais
conheci e nem sequer consigo adivinhá-lo. É apenas
a graça de uma pessoa comum que a torna de súbito
real porque é comum e
humana e reconhecível.
As descobertas nesse sentido são indizíveis e incomunicáveis. E
impensáveis. É por isso que na graça eu
me mantive sentada, quieta, silenciosa.
É como em uma anunciação. Não sendo porém precedida por anjos. Mas é como
se o anjo da vida viesse me anunciar o mundo.
Depois lentamente saí. Não como se estivesse estado em transe – não há
nenhum transe – sai-se devagar, com
um suspiro de quem teve tudo como o
tudo que é. Também já é um suspiro de saudade. pois tendo experimentado
ganhar um corpo e uma alma, quer-se mais
e mais. Inútil querer: só vem quando
quer e espontaneamente.
Essa felicidade eu quis tornar
eterna por intermédio da objetivação da
palavra. fui logo depois procurar no dicionário a palavra beatitude que detesto
como palavra e vi que quer dizer gozo da
alma. Fala em felicidade tranqüila – eu
chamaria porém de transporte ou de
levitação. Também não gosto da
continuação no dicionário que dia:
“de quem se absorve em contemplação
mística”. Não é verdade: eu não estava
de modo algum em meditação, não houve
em mim nenhuma religiosidade. Tinha acabado de tomar café e estava
simplesmente vivendo ali sentada com
um cigarro queimando-se no cinzeiro.
Vi quando começou e me tomou. E vi quando foi se desvanecendo e
terminou. Não estou mentindo. Não tinha tomado nenhuma droga e não foi
alucinação. Eu sabia quem era
eu e quem eram os outros.
Mas agora quero ver se consigo prender o que me
aconteceu usando
palavras. Ao usá-las estarei destruindo um pouco o que senti – mas é fatal. Vou chamar o que se segue de
“À margem da beatitude”.
Começa assim, bem
devagar:
Quando se vê, o ato de ver
não tem forma – o que se vê às vezes tem
forma, às vezes não. O ato
de ver é inefável. E às vezes o que é visto também é
inefável. E é assim certa espécie de pensar-sentir que chamarei de “liberdade”,
só para lhe dar um nome. Liberdade me
smo – enquanto ato de percepção – não
tem forma. E como o verdadeiro pensamento se pensa a si mesmo, essa espécie
de pensamento atinge seu objetivo no próprio ato de pensar. Não quero dizer
com isso que é vagamente ou gratuita
mente. Acontece que o pensamento
primário – enquanto ato de pensamento
– já tem forma e é mais facilmente
transmissível a si mesmo,
ou melhor, à própria pessoa que o está pensando; e
tem por isso – por ter forma – um alcance limitado. Enquanto o pensamento dito
“liberdade” é livre como o ato de pensamento. É livre a um ponto que ao próprio
pensador esse pensamento parece sem autor.
O verdadeiro pensamento parece sem autor.
E a beatitude tem essa mesma
marca. A beatitude começa no momento em
que o ato de pensar liberou-se da necessidade de forma. A beatitude começa
no momento em que o pensar-sentir ultrapassou a necessidade de pensar do
autor – este não precisa mais pensar e
encontra-se agora perto da grandeza do
nada. poderia dizer “tudo”. Mas “tudo” é
quantidade, e quantidade tem limite no
seu próprio começo. A verdadeira incomensurabilidade é o nada, que não tem
barreiras e é onde uma pessoa pode
espraiar sem pensar-sentir.
Essa beatitude não é em si leiga ou religiosa. E tudo isso não implica
necessariamente no problema da existência ou não-existência de um Deus.
Estou falando é que o pensamento do homem e o modo como esse pensar-sentir
pode chegar a um grau extremo de incomunicabilidade – que, sem sofisma ou
paradoxo, é ao mesmo tempo, para esse
homem, o ponto de comunicabilidade
maior. Ele se comunica com ele mesmo.
Dormir nos aproxima muito de
sse pensamento vazio
e no entanto pleno.
Não estou falando do sonho que, no caso
, seria um pensamento primário. Estou
falando em dormir. Dormir é abstrair-se e espraiar-se no nada.
Quero também te dizer que
depois da liberdade do estado de graça
também acontece a liberdade da imaginação. Agora mesmo estou livre.
E acima da liberdade, acima do certo vazio crio ondas musicais
calmíssimas e repetidas. A loucura do in
vento livre. Quer ver comigo? Paisagem
onde se passa essa música? ar, talos
verdes, o mar estendido, silêncio de
domingo de manhã. Um homem fino de
um pé só tem um grande olho
transparente no meio da testa. Um ente feminino se aproxima engatinhando,
diz com voz que parece vir de outro espaço, voz que soa não como a primeira
voz mas em eco de uma voz primeira que não se ouviu. A voz é canhestra,
eufórica e diz por força do hábito de vida anterior: quer tomar chá? E não
espera resposta. Pega uma espiga delgada de trigo de ouro, e a põe entre as
gengivas sem dentes e se afasta de
gatinhas com os olhos abertos. Olhos
imóveis como o nariz. É preciso mover to
da a cabeça sem ossos para fitar um
objeto. Mas que objeto? O homem fino
enquanto isso adormeceu sobre o pé e
adormeceu o olho sem no entanto fechá-lo. Adormecer o olho trata-se de não
querer ver. Quando não vê, ele dorme. No olho silente se reflete a planície em
arco-íris. O ar é de maravilha. As onda
s musicais recomeçam. Alguém olha as
unhas. Há um som que de longe faz: psiu! psiu!… Mas o homem-do-pé-só nunca
poderia imaginar que o estão chamando
. Inicia-se um som de lado, como a
flauta que sempre parece tocar de lado – inicia-se um som de lado que
atravessa as ondas musicais sem tremor
, e se repete tanto que termina por
cavar com sua gota ininterrupta a rocha.
É um som elevadíssimo e sem frisos.
Um lamento alegre e pausado e agudo co
mo o agudo não-estridente e doce de
uma flauta. É a nota mais alta e feliz
que uma vibração poderia dar. Nenhum
homem da terra poderia
ouvi-lo sem enlouquecer e
começar a sorrir para
sempre. Mas o homem de pé sobre o único pé – dorme reto. E o ser feminino
estendido na praia não pensa. Um novo personagem atravessa a planície deserta
e desaparece mancando. Ouve-se:
psiu; psiu! E chama-se ninguém.
Acabou-se agora a
cena que minha liberdade criou.
Estou triste. Um mal-estar que
vem do êxtase não caber na vida dos dias.
Ao êxtase devia se seguir o dormir para atenuar a sua vibração de cristal
ecoante. O êxtase tem que ser esquecido.
Os dias. Fiquei triste por causa desta luz diurna de aço em que vivo.
Respiro o odor de aço no mundo dos objetos.
Mas agora tenho vontade de dizer coisas que me confortam e que são um
pouco livres. Por exemplo: quinta-feira
é um dia transparente como asa de
inseto na luz. Assim como segunda-feira é um dia compacto. No fundo, bem
atrás do pensamento, eu vivo dessas idéias, se é que são idéias. São sensações
que se transformam em idéias porque tenho que usar palavras. Usá-las mesmo
mentalmente apenas. O pensamento primário pensa com palavras. O “liberdade”
liberta-se da escravidão da palavra.
E Deus é uma criação monstruosa. Eu tenho medo de
Deus porque ele é
total demais para o meu tamanho. E também tenho uma espécie de pudor em
relação a Ele: há coisas minhas que nem Ele sabe. Medo? Conheço um ela que se
apavora com borboletas como se estas
fossem sobrenaturais. E a parte divina
das borboletas é mesmo de dar terror. E conheço um ele que se arrepia todo
de horror diante de flores – acha que
as flores são assombradamente delicadas
como um suspiro de ninguém no escuro.
Eu é que estou escutando o assobio no escuro. Eu que sou doente da
condição humana. Eu me revolto: não
quero mais ser gente. Quem? quem tem
misericórdia de nós que sabemos sobre
a vida e a morte quando um animal que
eu profundamente invejo – é inconsciente de sua condição? Quem tem piedade
de nós? Somos uns abandonados? uns entregues ao desespero? Não, tem que
haver um consolo possível. Juro: tem que
haver. Eu não tenho é coragem de
dizer a verdade que nós sabemos. Há palavras proibidas.
Mas eu denuncio. Denuncio nossa fraqueza, denuncio o horror alucinante
de morrer – e respondo a toda essa infâmia com – exatamente isto que vai
agora ficar escrito – e respondo a toda essa infâmia com alegria. Puríssima e
levíssima alegria. A minha única salvação
é a alegria. Uma alegria atonal dentro
do it essencial. Não faz sentido? Pois
tem que fazer. Porque é cruel demais
saber que a vida é única e que não temos como garantia
senão a fé em trevas –
porque é cruel demais, então respondo co
m a pureza de uma alegria indomável.
Recuso-me a ficar triste. Quem não tiver
medo de ficar alegre e experimentar
uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade.
Eu estou – apesar de tudo oh apesar de tudo – estou sendo alegre neste
instante-já que se passa se eu não fixá-lo com palavras. Estou sendo alegre
neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como
resposta. Amor impessoal, amor it, é alegria: mesmo o amor que não dá certo,
mesmo o amor que termina. E a minha própria morte e a dos que amamos tem que ser alegre, não sei ainda como, mas te
m que ser. Viver é isto: a alegria do
it. e confortar-me não como vencida mas em um allegro com brio.
Aliás não quero morrer. Recuso-me contra “Deus”. Vamos não morrer como
desafio?
Não vou morrer, ouviu, Deus
? Não tenho coragem, ouviu? Porque é uma
infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde. Vou ficar muito
alegre, ouviu? Como resposta, como insulto. Uma coisa eu garanto: nós não
somos culpados. E preciso entender enquanto estou viva, ouviu? porque depois
será tarde demais.
Ah esse flash de instantes nu
nca termina. Meu canto do it nunca termina?
Vou acabá-lo deliberadamente por um
ato voluntário. Mas ele continua em
improviso constante, criando sempre
e sempre o presente que é futuro.
Este improviso é.
Quer ver como continua? Esta
noite – é difícil te explicar – esta noite
sonhei que estava sonhando. Será que de
pois da morte é assim? o sonho de um
sonho de um sonho?
Sou herege. Não, não é
verdade. Ou sou? Mas algo existe.
Ah viver é tão desconfortável.
Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não
pára, viver parece ter sono e não poder dormir – viver é incômodo. Não se pode
andar nu nem de corpo nem de espírito.
Eu não te disse que viver é
apertado? Pois fui dormir e sonhei que te
escrevia um largo majestoso e era mais verdade ainda
do que te escrevo: era
sem medo. Esqueci-me do que no sonho escrevi, tudo voltou para o nada, voltou
para a Força do que Existe e que se chama às vezes Deus.
Tudo acaba mas o que te escrevo continua. O que é bom, muito bom. O
melhor ainda não foi escrito. O
melhor está nas entrelinhas.
Hoje é sábado e é feito do
mais puro ar, apenas ar. Falo-te como
exercício profundo de mim. O que quero agora escrever? Quero alguma coisa
tranqüila e sem modas. Alguma coisa co
mo a lembrança de um monumento que
parece mais alto porque é lembrança.
Mas quero de passagem ter realmente
tocado no monumento. Vou parar porque é sábado.
Continua sábado.
Aquilo que ainda vai ser depois
– é agora. Agora é o domínio de agora. E
enquanto dura a improvisão eu nasço.
E eis que depois de uma tard
e de “quem sou eu” e de acordar à uma hora
da madrugada ainda em desespero – eis que às três horas da madrugada
acordei e me encontrei. Fui ao encontro
de mim. Calma, alegre, plenitude sem
fulminação. Simplesmente eu sou eu.
e você é você. É vasto, vai durar.
O que te escrevo é um
“isto”. Não vai parar: continua.
Olha para mim e me ama. Não:
tu olhas para ti e te amas. É o que está
certo.
O que te escrevo continua e estou enfeitiçada.

Frases de Clarice Lispector

Quem me acompanha que me acompanhe: a caminhada é longa, é sofrida mas é vivida.

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.

Ouve apenas superficialmente o que digo e da falta de sentido nascerá um sentido como de mim nasce inexplicavelmente vida alta e leve.

Escrevo-te porque não me entendo.

Atrás do pensamento não há palavras: é-se. Minha pintura não tem palavras: fica atrás do pensamento. Nesse terreno do é-se sou puro êxtase cristalino. É-se. Sou-me. Tu te és.

Depois de um certo tempo, cada um é responsável pela cara que tem.

O que estou te escrevendo não é para se ler – é para se ser.

Sim, o que te escrevo não é de ninguém. E essa liberdade de ninguém é muito perigosa. É como o infinito que tem cor de ar.

A minha única salvação é a alegria. Uma alegria atonal dentro do it essencial. Não faz sentido? Pois tem que fazer. Porque é cruel demais saber que a vida é única e que não temos como garantia senão a fé em trevas – porque é cruel demais, então respondo com a pureza de uma alegria indomável. Recuso-me a ficar triste.

Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta. Amor impessoal, amor ir, é alegria: mesmo o amor que não dá certo, mesmo o amor que termina. E a minha própria morte e a dos que amamos tem que ser alegre, não sei ainda como, mas tem que ser. Viver é isto: a alegria do it.

Fonte

Frases de Clarice Lispector sobre o silêncio e a autodescoberta

Que música belíssima ouço no profundo de mim. É feita de traços geométricos se entrecruzando no ar. É música de câmara. Música de câmara é sem melodia. É modo de expressar o silêncio.

 

Não posso ficar olhando demais um objeto senão ele me deflagra.
Mais misteriosa do que a alma é a matéria. Mais enigmática que o pensamento, é a “coisa”. A coisa que está às mãos milagrosamente concreta.

 

Eu tenho à medida que designo – e este é o esplendor de se ter uma linguagem.Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la – e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso da minha linguagem.
Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.

 

Sou uma iniciada sem seita.

 

-Clarice Lispector

Nove poemas de Clarice Lispector

Viver plenamente

Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.

A síntese perfeita

“Sou tão misteriosa que não me entendo.”

A certeza do divino

“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”

 

*

Cada vez mais acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor.

 

*

 

Resolvi guardar meu amor para mim, não por questão de egoísmo, mas de cuidado. Não quero que ninguém o toque, ou o machuque, só isso.

 

*

 

Deus lhe deu inúmeros pequenos dons que ele não usou nem desenvolveu por receio de ser um homem completo e sem pudor.

 

*

 

Já chorei até pegar no sono, mas já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.

 

*

 

Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.

 

*

 

Pode-se aprender tudo, inclusive a amar! E o mais estranho, Lóri, pode-se aprender a ter alegria!

 

-Clarice Lispector, diversas fontes

Três poemas de Cora Coralina

Tempo virá.
Uma vacina preventiva de erros e violência se fará.
As prisões se transformarão em escolas e oficinas.
E os homens, imunizados contra o crime,
cidadãos de um novo mundo,
contarão às crianças do futuro, estórias absurdas de prisões, celas, altos muros, de um tempo superado.

-Cora Coralina

 

ASSIM EU VEJO A VIDA

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

-Cora Coralina

 

Muitos se ufanam:

“Não devo nada a ninguém.”

Engano: devemos muito a todos.

-Cora Coralina

Oito poemas de Florbela Espanca

ANGÚSTIA

Tortura do pensar! Triste lamento!

Quem nos dera calar a tua voz!

Quem nos dera cá dentro, muito a sós,

Estrangular a hidra num momento!

 

E não se quer pensar! … e o pensamento

Sempre a morder-nos bem, dentro de nós …

Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –

O brilho duma estrela, com o vento! …

E não se apaga, não … nada se apaga!

Vem sempre rastejando como a vaga …

Vem sempre perguntando: “O que te resta? …”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!

Ser pedaço de gelo, ser granito,

Ser rugido de tigre na floresta!

-Florbela Espanca, em “Livro de Mágoas”

 

CONTO DE FADAS

Eu trago-te nas mãos o esquecimento

Das horas más que tens vivido, Amor!

E para as tuas chagas o unguento

Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento…

Trago no nome as letras de uma flor…

Foi dos meus olhos garços que um pintor

Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,

O manto dos crepúsculos da tarde,

O sol que é d’oiro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!

– Eu sou Aquela de quem tens saudade,

A Princesa do conto: “Era uma vez…”

-Florbela Espanca, em “Charneca em Flor”

 

DE JOELHOS

“Bendita seja a Mãe que te gerou.”

Bendito o leite que te fez crescer

Bendito o berço aonde te embalou

A tua ama, pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou

Da tua vida o doce alvorecer …

Bendita seja a Lua, que inundou

De luz, a Terra, só para te ver …

Benditos sejam todos que te amarem,

As que em volta de ti ajoelharem

Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser

Alguém, bendita seja essa Mulher,

Bendito seja o beijo dessa boca!!

-Florbela Espanca, em “Livro de Mágoas”

 

EU

Eu sou a que no mundo anda perdida,

Eu sou a que na vida não tem norte,

Sou a irmã do Sonho,e desta sorte

Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa tênue e esvaecida,

E que o destino amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…

Sou a que chamam triste sem o ser…

Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,

Alguém que veio ao mundo pra me ver,

E que nunca na vida me encontrou!

-Florbela Espanca

 

TÉDIO

Passo pálida e triste. Oiço dizer:

“Que branca que ela é! Parece morta!”

e eu que vou sonhando, vaga, absorta,

não tenho um gesto, ou um olhar sequer …

Que diga o mundo e a gente o que quiser!

– O que é que isso me faz? O que me importa? …

O frio que trago dentro gela e corta

Tudo que é sonho e graça na mulher!

O que é que me importa?! Essa tristeza

É menos dor intensa que frieza,

É um tédio profundo de viver!

E é tudo sempre o mesmo, eternamente …

O mesmo lago plácido, dormente …

E os dias, sempre os mesmos, a correr …

-Florbela Espanca, em “Livro de Mágoas”

 

Perdi os Meus Fantásticos Castelos

Perdi meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma…
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma…
– Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias…

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas…
Sobre o meu coração pesam montanhas…
Olho assombrada as minhas mãos vazias…

-Florbela Espanca, in “A Mensageira das Violetas”

 

 

Os Versos que Te Fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolências de veludos caros,
São como sedas brancas a arder…
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda…
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei…
E, nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

-Florbela Espanca, in “Livro de Sóror Saudade”

 

 

Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo …
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho … E não sou nada! …

-Florbela Espanca, in “Livro de Mágoas”

 

 

O Pavão – crônica de Rubem Braga

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas dágua em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.

Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

-Rubem Braga, Crônica

O leão – Vinícius de Moraes

O leão

(Inspirado em William Blake)

Leão! Leão! Leão!
Rugindo como o trovão
Deu um pulo, e era uma vez
Um cabritinho montês.

Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação

Tua goela é uma fornalha
Teu salto, uma labareda
Tua garra, uma navalha
Cortando a presa na queda.

Leão longe, leão perto
Nas areias do deserto.
Leão alto, sobranceiro
Junto do despenhadeiro.
Leão na caça diurna
Saindo a correr da furna.
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus que te fez ou não?

O salto do tigre é rápido
Como o raio; mas não há
Tigre no mundo que escape
Do salto que o Leão dá.
Não conheço quem defronte
O feroz rinoceronte.
Pois bem, se ele vê o Leão
Foge como um furacão.

Leão se esgueirando, à espera
Da passagem de outra fera…
Vem o tigre; como um dardo
Cai-lhe em cima o leopardo
E enquanto brigam, tranquilo
O leão fica olhando aquilo.
Quando se cansam, o leão
Mata um com cada mão.

Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!

Quem me compra um jardim com flores?

Quem me compra um jardim com flores?

Borboletas de muitas cores, lavadeiras e passarinhos, ovos verdes e azuis nos ninhos?

Quem me compra este caracol?

Quem me compra um raio de sol?

Um lagarto entre o muro e a hera, uma estátua da Primavera?

Quem me compra este formigueiro?

E este sapo, que é jardineiro?

E a cigarra e a sua canção?

E o grilinho dentro do chão?

Este é o meu leilão.

Leilão de jardim.

-Cecília Meireles

A outra noite – Rubem Braga

“Outro dia fui a São Paulo e resolvi voltar à noite, uma noite de vento sul e chuva, tanto lá como aqui. Quando vinha para casa de táxi, encontrei um amigo e o trouxe até Copacabana; e contei a ele que lá em cima, além das nuvens, estava um luar lindo, de lua cheia; e que as nuvens feias que cobriam a cidade eram, vistas de cima, enluaradas, colchões de sonho, alvas, uma paisagem irreal.
Depois que o meu amigo desceu do carro, o chofer aproveitou o sinal fechado para voltar-se para mim:
– O senhor vai desculpar, eu estava aqui a ouvir sua conversa. Mas, tem mesmo luar lá em cima?
Confirmei: sim, acima da nossa noite preta e enlamaçada e torpe havia uma outra – pura, perfeita e linda.
– Mas, que coisa…
Ele chegou a pôr a cabeça fora do carro para olhar o céu fechado de chuva. Depois continuou guiando mais lentamente. Não sei se sonhava em ser aviador ou pensava em outra coisa.
– Ora, sim senhor…
E, quando saltei e paguei a corrida, ele me disse um ‘boa noite’ e um ‘muito obrigado ao senhor’ tão sinceros, tão veementes, como se eu lhe tivesse feito um presente de rei.”

-Rubem Braga

Os dias lindos – Carlos Drummond de Andrade

Acontece em abril, nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos.
E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor. A temperatura ficou amena, conduzindo à revisão do vestuário. Protege-se um tudo-nada o corpo, que vivia por aí exposto e suado, bufando contra os excessos da natureza. Sob esse mínimo de agasalho, a pele contente recebe a visita dos dias lindos.
A cor. Redescobrimos o azul correto, o azul azul, que há meses se despedaçara em manchas cinzentas no branco sujo do espaço. O azul reconstituiu-se na luz filtrada, decantada, que lava também os matizes empobrecidos das coisas naturais e das fabricadas. A cor é mais cor, na pureza deste ar que ousa desafiar os vapores, emanações e fuligens da era tecnológica. E o raio de sol benevolente, pousando no objeto, tem alguma coisa de carícia.
O ar. Ficou mais leve, ou nós é que nos tornamos menos pesadões, movendo-nos com desembaraço, quando, antes, andar era uma tarefa dividida entre o sacrifício e o tédio? Tornou-se quase voluptuoso andar pelo gosto de andar, captando os sinais inconfundíveis da presença dos dias lindos.
Foi certamente num dia como estes que Cecília Meireles escreveu: ‘A doçura maior da vida flui na luz do sol, quando se está em silêncio. Até os urubus são belos, no largo círculo dos dias sossegados’. Porque a primeira consequência da combinação de azul e leveza de ar é o sossego que baixa sobre nosso estoque de problemas. Eles não deixam de existir. Mas fica mais fácil carregá-los.
Então, é preciso fazer justiça aos dias lindos, oferecer-lhes nossa gratidão. Será egoísmo curti-los na moita, deixando de comentar com os amigos e até com desconhecidos que por acaso ainda não perceberam o raro presente de abril: ‘Repare como o dia está lindo”. Não precisa botar ênfase na exclamação. Pode até fazê-la baixinho, como quem transmite boato e não deseja comprometer-se com a segurança nacional. Mesmo assim, a afirmação pega. Não só o dia fica mais lindo, como também o ouvinte, quem sabe se distraído ou de lenta percepção sensorial, ganha a chance de descobri-lo igualmente. Descobre e passa adiante a informação.
A reação em cadeia pode contribuir para amenizar um tanto o que eu chamo de desconcerto do mundo. De onde se conclui: deixar de lado, mesmo por instantes, o peso dos acontecimentos mundiais trágicos, esmagadores, para degustar a finura da atmosfera e a limpidez das imagens recortadas na luz, é um passo dado para reduzir o desconcerto, na medida em que a boa disposição de espírito de cada um pode servir de prefácio, ou rascunho de prefácio, à pacificação, ou relativa pacificação, dos povos e seus dominadores. Em vez de alienação, portanto, o prazer dos dias lindos é terapia indireta.
Pode ser que o desconhecido lhe responda com um palavrão, desses em moda na sociedade mais fina. Não faz mal. Não se ofenda. Ele descarregou sobre a sua observação amical o azedume que ameaçava corroê-lo no íntimo. Livre desse fel, talvez se habilite a olhar também para o céu e a descobrir mesmo certa beleza esvoaçante no urubu. De qualquer modo foi avisado. Já sabe o que estava perdendo: a consciência de que certos dias de abril e maio são mais lindos do que os outros dias em geral, e nos integram num conjunto harmonioso, em que somos ao mesmo tempo ar, luz, suavidade e gente.

-Carlos Drummond de Andrade, texto publicado no Jornal do Brasil, 1970.