Quem / Who -Sri Aurobindo, poema traduzido

Quem

 

No azul do céu, no verde da floresta,

De Quem é a mão que ornamentou o brilho?

Quando os ventos repousavam no úbere do éter,

Quem os despertou e fê-los soprar?

 

Ele se perde no coração, na caverna da Natureza,

Ele é encontrado no cérebro onde constrói o pensamento:

Na tessitura e florescer das flores entremeado,

Na luminosa rede de estrelas Ele aprisionado.

 

Na força do homem, na beleza da mulher,

Na risada de um rapaz, no rubor de uma moça;

A mão que faz rotacionar Júpiter pelos céus

Usa toda a sua perspicácia para desenhar uma curva.

 

Lá estão Suas obras e Seus véus e Suas sombras;

Mas onde Ele está, então, e por qual nome é conhecido?

Ele é Brahma ou Vishnu, homem ou mulher?

Corpóreo ou incorpóreo? Gêmeo ou solitário?

 

Amamos um rapaz negro e resplandecente;

Uma mulher é nossa Senhora, nua e feroz.

Vimo-Lo refletir na neve nas montanhas,

Observamo-Lo laborar no coração das esferas.

 

Ele contará ao mundo Seus meios e Sua esperteza;

Tem o enlevo de tortura e paixão e dor;

Deleita-Se em nossa tristeza e empurra-nos a chorar

E então nos isca novamente com Sua alegria e beleza.

 

Toda música não passa do som da sua risada,

Toda beleza, o sorriso do Seu deleite apaixonado;

Nossas vidas são o pulso de Seu coração; nosso enlevo

O noivado de Radha e Krishna; nosso amor, seu beijo.

Ele é a força que soa no clangor dos trompetes

E cavalga a carruagem e bate nas lanças;

Mata incansavelmente e é repleto de compaixão.

Ele guerreia pelo mundo e seus anos derradeiros.

 

No meneio dos mundos, no surgimento das eras,

Inefável, poderoso, majestoso e puro,

Além do último ápice tocado pelo pensador

Ele é entronado em Seus assentos sempiternos.

 

O Mestre do homem e seu Amante infinito

É próximo dos nossos corações – tívessemos visão a enxergar;

Somos cegos pelo orgulho e pompa das nossas paixões,

Somos presos em nossos pensamentos que nos fazem pensar livres.

 

É Ele no sol que é eterno e imorredouro,

E na meia-noite Sua sombra se alarga;

Quando a escuridão era cega e envolta em escuridão,

Sentado nela estava Ele, imenso e sozinho.

(tradução de Patanga Cordeiro)

 

Who

In the blue of the sky, in the green of the forest,
Whose is the hand that has painted the glow?
When the winds were asleep in the womb of the ether,
Who was it roused them and bade them to blow?

He is lost in the heart, in the cavern of Nature,
He is found in the brain where He builds up the thought:
In the pattern and bloom of the flowers He is woven,
In the luminous net of the stars He is caught.

In the strength of a man, in the beauty of woman,
In the laugh of a boy, in the blush of a girl;
The hand that sent Jupiter spinning through heaven,
Spends all its cunning to fashion a curl.

There are His works and His veils and His shadows;
But where is He then? by what name is He known?
Is He Brahma or Vishnu? a man or a woman?
Bodies or bodiless? twin or alone?

We have love for a boy who is dark and resplendent,
A woman is lord of us, naked and fierce.
We have seen Him a-muse on the snow of the mountains,
We have watched Him at work in the heart of the spheres.

We will tell the whole world of His ways and His cunning;
He has rapture of torture and passion and pain;
He delights in our sorrow and drives us to weeping,
Then lures with His joy and His beauty again.

All music is only the sound of His laughter,
All beauty the smile of His passionate bliss;
Our lives are His heart-beats, our rapture the bridal
Of Radha and Krishna, our love is their kiss.

He is strength that is loud in the blare of the trumpets,
And He rides in the car and He strikes in the spears;
He slays without stint and is full of compassion;
He wars for the world and its ultimate years.

In the sweep of the worlds, in the surge of the ages,
Ineffable, mighty, majestic and pure,
Beyond the last pinnacle seized by the thinker
He is throned in His seats that for ever endure.

The Master of man and his infinite Lover,
He is close to our hearts, had we vision to see;
We are blind with our pride and the pomp of our passions,
We are bound in our thoughts where we hold ourselves free.

It is He in the sun who is ageless and deathless,
And into the midnight His shadow is thrown;
When darkness was blind and engulfed within darkness,
He was seated within it immense and alone.

-Sri Aurobindo