A Mãe – poema épico de Sri Chinmoy sobre a Mãe Divina

A Mãe

por Sri Chinmoy

tradução Centro Sri Chinmoy Brasil

 

I

 

Um clamor argento escala o abismo escancarado;

Uma Graça dourada do ápice altíssimo responde.

Seu abraço-céu a nossa esperança de Aurora.

 

Em nada, salvo nas trilhas da Luz, da Verdade,

Rirá sem fim a Graça, do despontar ao poente –

Brilhando para longe da ignorância

E da sombra errante da falsidade, indomável,

Ou derrotada estaria em sua meta,

Satisfizesse a sede nua da cegueira.

 

A Força insuperável do Absoluto dourado

Corre pelo cerne da Luz e Verdade apenas.

Os Pés da Força apical que pairam

E suas enormes aberturas aqui embaixo

É tudo o que age na cega Natureza exterior,

Cisalha as raízes abissais retorcidas e vastas.

Entrega ampla – expondo-se à Força –

A cada passo é a maior necessidade do nosso ser.

Sempre a Verdade escolheremos,

Abandonando as Falsidades da mente e vida e terra.

Suas forças e formas são monarcas da raça humana.

 

Nossa interinidade nadará em reluzente entrega.

A alva resposta da alma e seus percursos interiores,

A ampla aceitação da mente mais sublime,

A submissão do ânimo arrogante da vida,

A consciência dos nossos invólucros mais sutis –

Por si só não contemplam o rosto da vitória.

Mesmo em nossas mais externas superfícies de relva,

Onde os vícios habitam taciturnos, como várias ondas,

A sombria desordem do conforto, luxúria e ardil

Deve tornar-se santuário aberto à luz de Deus.

 

Entremeadas de oferenda-oração aos céus

E choro silencioso e puro da tua submissão,

Se multifárias exigências da vida inferior

Macularem o teu anseio com demandas enormes e cinzas,

Ou detrás do carrilhão de altruísmo da tua devoção

E genuíno alvo anseio pelo Vasto

O “Eu” nu restar inexorável, supremo,

Então vã será a tua empreitada e tua reivindicação

À divindade além dos portais do pó e terra.

 

Uma parte de ti anseia pela Luz augusta,

E outra pelos Poderes cegos e hostis?

Então verta fora a esperança incendiada da tua alma

De que abrigarás a Graça acima da dúvida.

Um santuário sagrado a Presença incandescente exigirá

Se teu peito algum dia ansiar por Seu alento além do tempo.

 

E quando a Potência milagrosamente escorar-se

Em ti e nas cavernas silenciosas do teu espírito,

Concedendo maior dádiva de transformação inabalável,

Não cubra tua fisionomia do seu raio surpreendente,

Nem pranteies a rearpoar a força da falsidade

Expelida da vastidão-alma sol-encantada da tua natureza.

Não culpes a Graça incansável, o fogo descendente,

Pois o erro e mal reivindicaram o domínio da tua vida.

Um tropeço infrutífero é então o teu destino e fim.

 

Buscando a veracidade soberana

Desbarrastes teus portais às potências menores,

Redesejando as escuridões expatriadas das tuas profundezas,

Os poderes negros-valentes reivindicarão tua alma tremeluzente;

A altiva precursora-graça de ti então recuará.

Comande teus olhos a abjudicar seu âmago e lançá-las

Nas baixezas das terras do vasto lugar-nenhum.

 

Parte a altiva tora da tua doce fantasia.

Os ferozes opostos, luz e trevas,

A verdade flamejante e a cega ignorância,

Não podem juntos se tornar o santuário do teu peito.

Inigualável resida num brilho sem sombra;

E tudo que cerca a tua gigantesca marcha ao alto

Lança fora como um vago sonho indesejado.

 

A Divindade não responderá ao teu chamado,

Cegas demandas e suas exigências vazias

Onde residem luz e graça a despeito revoltarem-se.

Desrespeitando o decreto do Sol,

Não receberás sua vasta abundância glorificada.

Uma entrega leal à Sua chama eterna

É tudo o que o Criador presciente exige da natureza.

Supremamente livre tu és no teu jogo cósmico;

A luz divina não impõe exigência na tua labuta.

 

Que grilhão nenhum prenda rudemente teus passos libertos

Até que sejas transformado, irrevogavelmente transformado,

E tenhas saltado nos braços do Sol.

Descrédito gritante que bem seja seu guia errante.

Tu és livre a navegar a inundação da paixão, e lamuriar,

E lançar fora para sempre o soberano Poder,

Livre arquiteto do teu destino que és.

Uma labuta subrosa não é a exigência do altíssimo.

Tornado um instrumento guiado pelo Vasto,

Um brilho-feixe conduzido pelo lúmen apical,

Um erro impaciente trespassa as almas humanas.

Um abismo entre uma rendição imaculada

E uma negra indolência aquarelada não criam.

Continuidade e deleite irredutíveis e genuínos

Nunca proles de uma cansada letargia são.

Impiedoso, augusto, ousado deve ser aquele – solitário

Iluminado pela nua e singela Verdade e Esplendor,

Sacerdote e devoto de uma luz inata

Movido pela vontade alada do Uno, o Desconhecido.

O lutador interior não busca a pálida transigência,

Desobediência veloz nenhuma subjuga a sua alma.

Um verdadeiro servo do Vasto e de Deus ele será.

 

Abrigando a fé concentrada como uma chama,

Lâmpada irredutível que morte nenhuma pode arrebatar ou extinguir,

Trespassando desespero e discórdia em suas passadas,

Contemplarão o Sol triunfante somente aqueles que

Erguerem-se encarando o Chamado mundo-transformador.

 

II

 

MãeMãe– fonte do Uno solitário

Que expede na vastidão abundante,

Por cujos céus a desprendida Luz dos mundos

Tece o cinturão do Seu Mistério.

Ao redor do Seu Eu fogo-puro Ela fia a teia

De uma natureza sem fim e empunha as rédeas

Do ego em cada forma humana a mergulhar

Num ilimitado turbilhão de cego agir.

 

Quem é a escaladora do cume?

E de quem é a incendiada labuta ardente e nua?

Só Ela é a inigualável, triunfante Força –

A presença alta invisível – una, suprema.

Mãee sua prole Luz e Poder e Saber,

Conceito de intrínseco êxtase,

Agem no chamadoque, quando receptivo, apresenta-se

À Mãevertendo abaixo seus eldorados

A possibilitar a buscado mundo.

A procura audaz do buscador de intenções puro

Deve durar até a natureza baixa definhar.

 

Nosso hígido, tremendo empenho

Requer sempre uma aspiração reta e segura,

Uma entrega que desconhece sono ou repouso,

A vontade sublime da mente, a profundidade buscadora do coração

E uma purificada amplitude do amor vital.

Uma certeza corajosa implacável por ser

Um plástico e leal instrumento para todo o bem,

A moldar altiva a consciência da terra.

Apartar devemos os movimentos sombrios, selvagens,

Da abissal natureza irresoluta.

Desejos e caprichos e as predileções da mente

Que sofram a força dos nossos temíveis pés-trovão.

Assim o conhecimento hialino encontrará um aposento

Imune no ilimitado vão da mente silenciosa.

Aos Pés da Verdade augusta coloquemos

O baixo desejo, exigências, anseios, comoção,

Paixão, egoísmo, arrogância, luxúria

E fé pífia da natureza vital,

O monstro de verdes olhos, o juízo de ímpeto hostil,

E num piscar o poder e alegria sublimes

Do zênite precipitam-se, abraçando

O calmo, estupendo sacrifício vital.

A dúvida da nossa natureza não mais perseguirá nosso coração.

Obstinação, pequenez e cega preguiça

E todos os nossos atos vãos e sombrios morrerão.

Assim, a verdadeira estabilidade da Luz e Poder

E Deleite encontrar-se-ão num corpo erigido

Imune dos grilhões e envoltório externo,

Ainda mais imaculado e vivendo mais divino.

 

Em todo loco da tua consciência

Entrega completamente o que tu és e possuis

À alta Mãe, Única Potência inigualável.

Rendido à Sua imensidão de Luz,

O buscador do vasto e encoberto caminho

Dirige-se em campos interiores e céus reluzentes.

Ele descobre sua buscapela Mãerealizada.

Sem demora Ela verte mais e mais

De Si mesma nele e nele funda Liberdade sublime

E perfeição imaculada da Natureza divina.

Quanto mais esse processo consciente captura seu esforço,

Mais rápido, mais genuíno é o seu crescimento.

Uma comoção de pura entrega e completa

Consagração-vida corre do alto ao fundo;

Falece então a aflição do esforço – não antes.

Uma meia entrega nada é senão uma fraude.

Seu chamado a Deus por satisfazer os desejos e libertar

O homem da dor e tribulação abocanha o vazio do ar;

Perfeição, liberdade – anseios remotos.

 

III

 

As coisas de altíssima necessidade amálgamas são –

Teu coração de lealdade, o candor e Bondade altiva

Da Divina Mãe – marcham em formação.

Se as possuir, nunca o terror e suplício

Arrebatarão tua vida terrena; destemido, desimpedido

Prosseguirás trilhando a seara do mundo.

A natureza baixa e a arrogância da mente

São meras chamas débeis e opacas que nunca

Iluminam-te ao alto a céus dourados.

Tu viste o despontar do mundo para o trabalho divino,

Sustentando o Uno a fundar o Espírito na terra.

Que teu coração anseie pela Verdade e Potência apenas,

Por pureza e luz, amplitude e calma,

Deleiteda consciência suprema,

E com sua constância diamantina reforjada

Aperfeiçoe a tua mente e vida e invólucro externo.

Nada pode satisfazer a tua sede insaciável

Exceto o puro néctar do Dourado.

Deseje vê-Lo inundar de sua mística força

A Terra, a ti e todas as almas de visão elevada.

Na queda dos teus nêmeses resta a tua única escolha.

Nossa Terra suportará com sua ajuda uma nova criação.

E quando ofereceres a ti mesmo esqueça a palavra

‘Reservas’ e cerre os punhos nas gargantas dos cães das exigências.

Tua língua não deve formular quesitos de troca;

Parta as sombras da dúvida com tua vontade despida.

A vida do “eu” não mais em ti será,

Nem uma gota de força não divina –

E a chuva da benesse da Mãe será tua!

Escalando o pico da completude da entrega

Sentirás Suas asas indomáveis-diamante de Graça

Guardando-te, a todo redor e interior.

Não uma enxurrada, mas uma gota de Providência divina

Basta a tornar o teu peito desperto para enfrentar

Os abundantes desafios e selvagem emboscada do perigo.

Poder titânico nenhum da terra ou de mundos não vistos

Podem deturpar teu coração ou suspender tua marcha veloz.

A teus pés os olhos dos terrores banham-se em lágrimas.

Uma alquimia é o toque da Sua Graça desmedida.

Dividendos florescem das exigências descaradas.

Fracasso e labuta fútil alcançarão os louros

Do triunfo, e fraqueza será uma força inescapável.

Verdade que é, um mar de verdade luminosa –

Sua Graça é inundada da anuência do Uno.

Inamovível por negro impedimento qualquer,

O cavalgar reto de horas levará tua alma

Ao Atemporal e Sua epifania no Tempo.

 

IV

 

Dinheiro, plutocracia, uma potência na Terra –

Sua fonte reluzente é o Absoluto Singular;

Seu fluxo pertence à Sua força certeira.

Nosso cego “eu” e o selvagem titã subjacente

Entesouram para sempre o dinheiro, poder, amor aprisionador.

 

Longas e estranguladoras mãos do Príncipe das Trevas

Disseminaram afluência sobre a nossa terra.

Para escapar dessa caída tendência tudo-envolvente

Uma disciplina incansável gigantesca é o caminho

Para mestria-de-si – o Ápice dourado.

Mas nunca reivindique que “A riqueza é inimiga da luz;

Uma débil, árida e nua vida

É a única passagem para a Vastidão do Espírito.”

 

Adquirir dinheiro para o Uno, sua Fonte,

E atuar divinamente com ele, e descobrir nova vida

No solo aspirante deve ser a busca incansável

De todos os escaladores do Zênite além.

Não permita que a canção do anacoreta conquiste o teu coração.

Não feche o teu coração para o brilho da moeda humana

E nem chafurde no pântano de alegrias moribundas,

Fazendo da tua alma um vassalo de poderes carnais.

 

Que a riqueza é um poder de Deus, isso é uma verdade mascarada.

Reconquiste-o para a Mãe do Sol

E coloque a serviço dos Seus pés supernos

Todos os eldorados no abismo perdidos.

Na enchente-criação do Todo Dourado

A potência-dinheiro deve retornar à sua Rainha.

No mar de lucro-néctar nunca nade.

Seja tu uma onda-herói de retidão;

Precisão, vigília, candor – tais os teus nomes.

 

O escalador do Espírito é aquele que habita

Na penúria se assim exige a necessidade.

Sentimento de abstinência nenhum fere seus régios pensamentos

Nem impede a marcha interior de sua consciência.

Ainda assim, quando o Espírito lhe exige, pode abraçar toda a riqueza.

Sozinho será ruborizado com os feixes do triunfo,

Cuja natureza diamantina é, e é vazia de ‘eu’ também,

Cuja alma solitária só se prostra ao direito de Deus.

 

V

 

E, se teu espírito anseia servir ao Uno,

Nunca liberte os cães-desejo na tua seara.

Teu pífio ‘eu’ cego deve ser posto a dormir para sempre.

Nada seja senão uma oferta ampla

E lentamente floresça-te perfeito, completo

Dentro da Sua imaculada consciência.

Abismo algum deve obscurecer o entre a tua vontade e a Dela,

Nenhuma intriga subjacente em ti sustentar-se-á;

Preencha agora a caverna do teu coração com Seus pensamentos-relâmpago.

 

Um sorriso estupendo de puro deleite corre

Dos Seus olhos a ver teus divinos atos altruístas.

Serviço apenas é o que aviva teu crescimento interior.

Mesmo que a ‘união’ seja ainda uma meta remota,

Um dia despontará com a vitória desejada a ti –

Tu e a Mãe entremeados numa malha dourada.

Essa verdade brilhará no teu clamor ascendente.

É fato que Sua Vontade desperta a tua marcha da vida;

Sua Vontade é os frutos de todos os teus feitos.

 

Unicidade com Ela, dependência em Sua força,

Ultrapassa todo enlevo terra-nascido.

Esse vasto avanço único transporta o teu coração

Além dos labirintos fúteis do desejo,

Além das garras dolorosas da Noite térrea,

Além do cerne imensurável da Ignorância,

Aos dourados céus de deleite perpétuo.

 

VI

 

São quatro potências as soberanas do mundo,

Por cujas normas cósmicas Ela age divina,

Mãe de onipotência nunca vista.

Elas são o ritmo criador do Seu imenso coração,

Suas mãos vivas a construir, moldar e formar,

Seus enormes pés a pisotear ou acordar.

Por seu peito Ela guia Seus humores infinitos,

Seu golpe imorredouro ou encanto lúcido.

Trabalhando velada pela tela do ego,

Labutando multifacetada através do Tempo,

Num enlevo, feroz, maravilhosa ou liberta,

Incansável, esplêndida com grandes olhos em vigília,

Ela é única, substantivo Ápice de Deus.

Não apenas num transe de âmago tudo-vidente

Está Ela sobre Seu pináculo de dourada calma,

Mas também Ela é a violenta ira e força

Partindo o selo diamantino que o destino não é capaz.

Não apenas Poder é o seu segredo integral,

Ela é a Consciência das searas ocultas,

Cujos pés estão acima das amarras obscuras da razão.

Pouco adjudicamos da Sua doçura e alento,

Pouco sabemos da Sua incrível Graça.

 

Na Transcendência resta solitária, suprema Ela –

No Universal, espalha Seus braços no espaço –

No Individual, suporta a cruz do humano destino.

Um poder primevo é acima absoluta Ela;

Ao solo Sua presença é brilho

Íntimo, claro, arrebatador, articulado.

Dupla a Sua consciência, como uma dupla onda –

Deusde transe em enlevo interminável,

Incendiada Deusade passadas eternas.

Quando desvela Seu semblante ilimitado,

O orgulho da Morte é um vazio estupendo.

 

Senão pela Sua decisão, decreto de onipotência,

Nada pode aqui ou em qualquer parte existir.

Dentro Dela alçam-se os Impulsos do Sol;

Incansável trabalha na Natureza a cada intervalo;

Majestosa erige-Se sobre o reino dos deuses.

Muitas as potências e personalidades

Que envia à Terra a divinamente agir,

Lutar com inimigos, vitória a ter e reinar.

Emanações é como se chamam, tais poderes soberbos.

Abstraídas do Tempo, por eras as almas humanas

Nessas emanações sob diferentes nomes

Invocaram a Mãe Divina inigualável.

Eventos no teatro-mundo são como

Um drama preparado e ensaiado.

Se a Mãe é para todos, todas as coisas Ela é,

Mesmo as perpetrações da ignorância vasta.

O amor por Seus filhos é um mar sem fim;

Elevando seu destino, Ela encara golpes tremendos

De Falsidade, torturas loucas da Noite nua.

Quatro personificadores nomes poderosos Ela tem –

Amadas Maheshwari,Mahakali,

Mahalakshmi,Mahasaraswati.

 

 

Maheshwari

 

Incontestável Maheshwarihabita na vastidão,

Acima das nossas mentes e vontades absortas, melancólicas.

Seu âmago inundado de Poder e Conhecimento desconhecido,

Ela abre nosso coração aos céus zenitais,

Ao Todo Dourado e ampla vastidão do globo.

Onda de tranquilidade e glória Ela é.

Em Sua calma estupenda habita o Eterno.

Um conhecimento sempre supremo é o que Nela brinca.

Nada ousa Dela ficar secreto.

Nada opõe Sua Vontade diamantina.

Todos os mundos sob o decreto dos Seus Olhos Raio-X,

Seu Poder único retesa todas as coisas e momentos.

Ainda assim, o cerne do sofrimento é Ela,

E quem se aventura a medir Seu amor pela Terra?

Sua visão não possui cega preferência.

Um conhecimento mais luminoso dos sábios Ela recebe.

Seus confidentes são os que possuem visão.

Ela compele o hostil à sua natural perdição:

Leva as almas isentas de conhecimento verídico

E os que chafurdam na alegria da cega tolice

Razoavelmente à sua pequenez.

Respostas são dadas da forma com que os homens chamam por Ela.

 

Nada poderia algemar Seus ágeis Pés,

Em vão tenta o apego da Terra aprisionar o Seu amor;

Mas a Mãe em Seu coração é mais forte.

Seu repúdio nada é senão um atraso,

Seus golpes impiedosos dádivas doces.

Mas a enchente da Sua compaixão não alaga a Sua Lei,

Nem afasta Seu ato do curso por Ela ordenado.

Pois a verdade das coisas é sua única escolha divina.

Natureza sobre a Verdade última erige-se.

 

 

Mahakali

 

Mahakali, a interminável vertente de Poder,

Não deseja o vasto, mas o mais sublime Ápice.

Não o conhecimento, mas a força suprema é a sua escolha divina.

Sua inigualável celeridade além do imaginável

A conquistar vitória da paixão-maravilha,

Com seus Pés-trovão Ela calca as almas

Que ousam negar a Verdade, a Lei do Uno.

 

Mesmo nossas falhas insignificantes Ela não tolera.

Impiedosa, luta com uma enorme ira contra tudo no homem

Que luta por menos que uma transformação dourada.

Contra toda perfídia, falsidade, rancor tétrico,

Sua fúria tremenda é mais veloz que uma flecha.

Nunca Ela permitirá que apatia ou descaso

No trabalho divino cresça e longe se alastre.

Acolá Ela aflige a despertar com dores pujantes

O homem que perambula na terra do concordar

E aquele que se larga em vão e ao descaso.

 

Branco-de-lua clamor que ascende veloz em chama

Do coração humano floresce apenas na sua Dádiva.

Destemido é seu Espírito, sublime a sua Vontade-Visão.

E como sua marcha poderosa engendra temor

No coração fraco, também é Ela amada e adorada

Pelo nobre, pelo forte, pois sabem que essa Mãe fere

Apenas aquilo que revolta em seu âmago.

Sua presença alta com meio olhar realiza

O trabalho incansável de séculos num dia.

Só Ela enverga à erudição uma potência conquistadora.

Nossa dura e morosa labuta que anseia abraçar

A estrela de perfeição verdadeira, imaculada,

Recebe dela uma impulsão única que alarga

Em infinita medida nossa força interior.

Só Ela possui a Potência triunfal do Uno.

Luminosa se torna a sua Face com um deleite secreto

Quando ansiamos pelo Pináculo desconhecido.

 

 

Mahalakshmi

 

Mistério inato – Mahalakshmi,

De si corre toda harmonia imaculada –,

Milagre sem par de um incessante florescimento,

Segredo do sinfônico deleite-mundo,

Inigualável Coração fascinando o coração do homem.

 

Maheshwari, serenidade da luz primeira,

Régia perpétua, remota e calma;

Mahakali, relâmpago destemido, feroz,

Não atrai nossa ignorância por sua velocidade e investida;

Mas todos com ardor voltam-se a Mahalakshmi,

Deleite singular inebriante.

Sua intimidade, nosso rio de alegria sem fim.

Nossa vida purpurea-se da maravilhosa carga

De êxtase ao sustentarmos seu Alento

Em nosso âmago – uma sagrada e luminosa canção.

Da sua bonança flui a dádiva de raios-lúmen

Como múltiplas chamas da Luz do dia e Deus.

Seu toque é o ímã sobre qual suave preponderar

Purifica nossa vida, nossa mente e arcabouço externo.

Suas gloriosas exigências e todas as suas leis

Necessitam de um instrumento céu-destinado desencoberto.

Harmonia e florescer em nossa terrena vida é o que escolhe Ela.

Mesmo dentro de toda circunstância em vicissitude,

Seu Espírito se move onde beleza e enlevo crescem.

Um cego desgostar divino impele seu Coração

A esconder-se da nossa cegueira de luxúria-terra.

Nossos pensamentos esquálidos, definhados, baixos e disformes

Repelem a marcha-vitória do nosso coração.

Mãe de paciência, Ela aguarda imune subrosa

Como um mar de infinita, incansável tranquilidade.

As mãos que impõem, Mahalakshminão tem.

Estabelece Ela sua solicitude de alegrias inigualáveis

Apenas quando os ventos das paixões passam e acalmam –

E o coração pode ansiar pela vastidão eletrizante da sua dádiva.

 

O hirto asceta trancafiando-se longe das bênçãos de luz –

O restringir da rica, profunda emoção do coração,

O impiedoso golpear do apocalipse do esplendor –

Nunca ousariam conquistar sua luminosa anuência.

Através de amor irrestrito a Mãe verte

Nas almas humanas o reino de vastidões supernas.

A vida, em sua inigualável criação alva, é transformada

Para um trabalho único da arte do firmamento.

Mesmo o diminuto e desprezível renascem

Grandiosos pela vinda-prodígio da sua Intuição.

Ela é para sempre a estupenda onda-néctar

Que concede em dádiva um doce Infinito além do imaginável.

 

 

Mahasaraswati

 

Inigualável Artesã do dourado da perfeição –

Lentamente Ela molda o mundo, átomo por átomo.

Seu é o hábil polegar, e sua sagacidade é afiada.

Ela captura nossa vida humana com paciência desconhecida

E cresce em nosso coração com passos medidos.

Sempre-vigilante Tecelã da Verdade Ela é,

E próximos da nossa Natureza tangível estão Seus rítmicos Pés.

A Mãe Maheshwaritraz à tona

O estupendo rio de forças do mundo,

Mahakalias inunda de força e velocidade,

Mahalakshmifunda seus ritmos e compassos,

Mahasaraswatiem precisos detalhes

Observa seu poder governante e então age.

Numa labuta suprema e cuidado Ela modela, remodela

Cada parte até que recapture sua forma genuína.

Seu coração não sofre súbita inoportuna suspensão,

Nada é mísero a seus Olhos tudo-penetrantes,

Nada engana Sua visão, disfarçado como esteja.

 

Seu Conhecimento substancia-se no solo de Intuição.

Apenas o aceitável Ela carinhosamente empunha.

Sua paciência-diamante é um amor todo-pujante.

Seu toque-milagre transforma o solo inerte

Num puro receptáculo-perfeição de lúcido florescer.

Docemente Ela orienta a nossa habilidade a Portais acima.

As almas despreocupadas não alcançam o córrego do seu amor:

Mestria é a única coisa a banhar-se em seu mar de Graça.

Desprovida de sorrisos é Ela até o despertar da perfeição.

Sua alta onisciência entalha a Terra mordaz.

Incansável Ela tece em padrões celestiais

Nosso caos flutuante perturbado por débeis esperanças.

Uma vontade flamejante, uma onda de sinceridade

É sua única exigência das almas aspirantes humanas.

Nunca Ela inala o pejorativo ar da tristeza,

A doce Mãe para as nossas necessidades abundantes:

Nossa perpétua Estrela Polar e Confidente,

Ela afasta nossa sombria escuridão recalcitrante,

Toda cega lassidão, com Seu sol-vasto sorriso;

Aponta-nos o brilho eterno do deleite

E somente Ela é o punho essencial

A coroar o esforço dos demais poderes.

Destemida Ela afirma na matéria uma fundação divina.

 

-Sri Chinmoy

 


A Mãe

Introdução de Vidaghda Bennett

 

Em 1927, Sri Aurobindo escreveu um livreto revelador chamado “The Mother”. Ele contém seis capítulos e um pouco mais de 8.000 palavras. O sexto e final capítulo descreve os quatro poderes da Mãe em seus quatro aspectos: Maheshwari, Mahakali, Mahalakshmie Mahasaraswati.*

*Nota do tradutor: no oriente é mais usual referir-se à Deus pelo aspecto materno do que paterno. Esses nomes são diferentes formas e qualidades pelas quais o divino é abordado no oriente.

Com vinte e sete anos de idade, o jovem Chinmoy deu o corajoso passo de transcrever o livro completo em 489 linhas, com versos pentametros iâmbicos brancos*. Seu poema foi publicado em partes na revista “The Mother India”, de maio de 1959 a agosto de 1961. Em cada parte, ele deixou uma simples nota de rodapé explicando que o poema é uma versificação do conteúdo do livro “The Mother”, de Sri Aurobindo, junto com o capítulo correspondente do clássico do Mestre. Ele assinou sua obra como “Madal”.

“São quatro potências as soberanas do mundo…” começa Madal na Parte VI. Se lermos suas palavras lado a lado com o capítulo correspondente de Sri Aurobindo, vemos o Mestre abrindo seu capítulo nos quatro aspectos da Mãe assim: “Os quatro Poderes da Mãe são quatro de suas Personalidades incríveis, porções e personificações da sua divindade através das quais ela age nas suas criações…” Ler essas duas obras lado a lado é ficar absorto num diálogo iluminador entre prosa e poesia, Mestre e devoto.

Enquanto “The Mother” é uma das obras curtas mais lidas de Sri Aurobindo, a interpretação poética de Sri Chinmoy teve uma leitura limitada no período após ter sido escrita sessenta anos atrás. Entretanto, acredito que, como um poema em seu próprio mérito, sua versificação de “The Mother” é uma das suas mais refinadas obras.

No dia 5 de janeiro de 2002, ao contar sobre suas experiências interiores com a deusa Saraswati, Sri Chinmoy mencionou seu poema a muito esquecido:

 

“Sri Aurobindo escreveu sobre Mahakali, Mahalakshmi, Mahasaraswati e Mahamaheshwari em seu livro ‘The Mother’. Ele o escreveu em prosa. Eu o transcrevi em poesia, e ela saiu na revista do Ashram chamada ‘Mother India’. E a Mãe* [N.d.T. Mirra Alfassa, do Ashram de Sri Aurobindo] estava presente fisicamente na época. Tanta liberdade eu tinha lá! Ao invés de me mandarem embora, publicaram o poema na revista. São pelo menos sessenta ou setenta páginas de poesia. Vocês deveriam lê-lo, se ainda puder ser encontrado.”