Nove poemas de Clarice Lispector

Viver plenamente

Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.

A síntese perfeita

“Sou tão misteriosa que não me entendo.”

A certeza do divino

“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”

 

*

Cada vez mais acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor.

 

*

 

Resolvi guardar meu amor para mim, não por questão de egoísmo, mas de cuidado. Não quero que ninguém o toque, ou o machuque, só isso.

 

*

 

Deus lhe deu inúmeros pequenos dons que ele não usou nem desenvolveu por receio de ser um homem completo e sem pudor.

 

*

 

Já chorei até pegar no sono, mas já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.

 

*

 

Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.

 

*

 

Pode-se aprender tudo, inclusive a amar! E o mais estranho, Lóri, pode-se aprender a ter alegria!

 

-Clarice Lispector, diversas fontes