Ralph Waldo Emerson

Emerson foi um pensador na mais sublime acepção do termo. Sua filosofia toca o cerne de todos os problemas terrenos. “Os fins”, dizia ele, “preexistem nos meios.” Portanto, o que importa é acalentar nossas mais elevadas aspirações, com toda a sinceridade e determinação, repousando garantidos na fé de que elas realizarão a si mesmas.

Ele veio de pais pobres, mas tinha uma vontade inabalável e dependia somente de si. Estranhamente, ele aprendeu com o seu próprio interior a ser alegre diante da pobreza. Seu pai, William Emerson, um membro do clero, faleceu quando Waldo era um rapazinho de oito anos de idade. Logo em seguida, a família foi lançada em extrema pobreza. A pobreza chegou a ponto de Emerson e seu irmão mais velho terem de compartilhar de um mesmo agasalho durante o inverno. Certamente um deles tinha de ficar em casa enquanto o outro estava fora – e quem, se não o irmão mais novo, seria o azarado? Waldo perdeu as atrações, afeições e diversões do mundo exterior. Mas, ao mesmo tempo, seu isolamento lhe trouxe a oportunidade de mergulhar no mar do conhecimento. Ele estudou vorazmente. Os Diálogos de Platão e Pensamentos de Pascal inspiraram todos os seus momentos. Mais tarde, atendendo a um ímpeto interior, ele abraçou Spinoza e Montaigne juntamente com seus mestres anteriores.

Ele possuía muitos antagonistas. Hipocrisia e superstição eram os piores. Emerson lutou e lutou contra eles, mas o sucesso permanecia longe. Emerson também tinha muitos amigos. Verdade e sinceridade encabeçavam a lista.

América, a mais bela terra da liberdade, oportunidade e progresso, inspirou em Emerson o pensamento de que seus conterrâneos deveriam utilizar todos os seus dons divinos para buscar as metas mais divinas da vida. Certamente, a América irá ganhar sua verdadeira estatura quando viver as elevadas aspirações do seu filho-filósofo.

O amor de Emerson pelo aluno americano vinha da sua aspiração altíssima:

“Nosso aluno deve ter estilo e determinação, e ser um mestre em sua própria especialidade. Contudo, alcançado isso, deve colocar tal coisa atrás de si. Ele deve ter uma catolicidade, um poder de enxergar cada objeto com uma visão livre e desengajada.”

Em outras palavras, ele esperava que o aluno americano fosse uma unidade útil, não somente para a nação, mas para a crescente família-mundo.

“As coisas ensinadas nas escolas e faculdades,” Emerson sentia fortemente, “não são educação, mas os meios para a educação.” Um aluno, ao lhe ser confiado os meios, recebe sobre si a responsabilidade de continuar a se educar até que o finito e o Infinito dentro e fora dele sejam unificados numa personalidade expandida.

A filantropia e caridade certamente são de muita valia. Mas a maior parte das pessoas não possui consciência das limitações dessas duas virtudes. Tratando-se de um genuíno amante da Verdade, Emerson foi corajoso ao dizer: “Filantropia e caridade possuem certo ar de deboche.” É verdade que poucos, ou talvez ninguém, tenham impresso na tabuleta dos seus corações o grande ensinamento da Bíblia:

“Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que a mão direita faz.”

Para Emerson, poesia e filosofia não são meros enfeites. A filosofia foi um fator dinâmico formador da sua vida. Ele foi um verdadeiro homem de visão, utilizando a filosofia para sustentar a sua visão e a poesia para expressá-la. Sua vida foi uma mistura feliz de sonhos sublimes e gestos criativos. Ele não conhecia meio-termo com a sua verdade embutida: “Quando ele [o poeta] canta, o mundo escuta com a certeza de que, agora, um segredo de Deus está prestes a ser proferido.” Isso não está de acordo com a definição indiana do poeta como um vidente? O idealismo de Emerson alçou-o para muito além do seu tempo.

No dia 11 de março de 1829, Emerson foi promovido ao ministério da Second Unity Church em Boston. Mesmo o seu maior inimigo não podia negar o notável dom que tinha para fazer discursos. Todavia, mais tarde Emerson teve de separar-se da igreja por não concordar com a sua congregação quanto ao seu método de ensino. Ele simplesmente deixou a igreja, sem atacar ninguém. Era ideal, pensou, que a sua congregação tivesse outro pastor, um pastor que fosse mais de acordo com o seu gosto. Mas um dos reacionários não conseguiu se conter e disse: “Temos pena do Sr. Emerson, mas certamente parece que ele está indo para o inferno.” Nem tanto devemos esquecer-nos da resposta imediata de um verdadeiro buscador: “Realmente parece. Mas tenho certeza de uma coisa: se Emerson for para o inferno, ele mudará seu clima de tal forma que se tornará um local popular entre todas as boas almas do Céu.”

O amor por Deus de Emerson era profundo demais para formatos e convenções. Talvez por isso ele tenha deixado o ministério da Unity Church de Boston. Pessoas aquém do seu nível de cultura são objetos de pena. É natural que não tenham compreendido ele corretamente. Emerson parece ter navegado “estranhos mares de pensamento, sozinho,” com profundo autoconhecimento. A verdade de Emerson, “Ser grande é ser mal compreendido,” encontra um belo paralelo em Sri Aurobindo, o maior Vidente da Índia:

“Aquele que é por demais grandioso deve viver sozinho,

Adorado caminhando em repleta solidão;

Em vão é o seu esforço em criar comparáveis,

Seu único companheiro é a Força interior.”

Felizmente, dois grandes contemporâneos, Lincoln e Emerson, oferecem um exemplo histórico de apreciação mútua. Durante a inesquecível Guerra Civil nos EUA, foi a inspiração de Emerson que ofereceu “as melhores e mais corajosas palavras.” Ele completamente apoiava o presidente Lincoln na sua grandiosa tarefa e o chamava de “o Protetor da Liberdade Americana.” Também o presidente não poderia ficar calado. Ele honrou o buscador em Emerson com as calorosas palavras “o Profeta da Fé Americana.”

“O Profeta da Fé Americana.” Sim. Mas mais verdadeiramente um Profeta da Fé Universal, um vidente visionando o futuro no presente vivo:

“Um dia todos os homens serão amantes, e toda calamidade se dissolverá na luminosidade universal.”

 

 

Escrito em Pondicherry, Índia

e publicado em Mother India, 1963

 

– Sri Chinmoy

 

Do livro Pensadores-Filósofos do Ocidente editora Agbook

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